domingo, 4 de dezembro de 2011

A música e os primatas não humanos

Não sei se alguma vez pensaram acerca de como os outros animais percepcionam a música.

Como apreciadora de música em geral, já pensei nisso. As primeiras tentativas foram há uns atrás quando era mais nova, na casa da minha avó quando cantava para os gatos! Era somente uma criança à espera de qualquer reacção por parte destes animais. A mensagem das minhas canções era sempre a mesma "Não fujas, porque não te quero fazer mal!".
Acredito que muitas crianças tenham feito isso, especialmente se cresceram influenciadas pelos filmes da Disney. Onde, inclusive, os animais para além de responderem às músicas, cantavam com vozes extraordinárias. O meu ídolo era a Pocahontas, ela não se limitava a cantar para os animais, ia mais a frente, cantava para os espíritos e para o vento!
Recentemente estava a ver um reportagem sobre pessoas (nos EUA) que tinham chimpanzés como animais de estimação. Uma delas referiu que quando os chimpanzés assistiam a filmes de terror, ou filmes de acção que exibissem perseguições, eles ficavam extremamente agitados e vocalizavam histericamente. O próprio dono/tratador disse que eles  pressentem e premeditam que algo terrível vai acontecer.  Concluindo ainda, que os chimpanzés gostavam desse tipo de filmes.
E qual a relação com a música? Existem estilos de música bastante agressivos (como vocês sabem) e assim como imagens rápidas, de pessoas a serem perseguidas, lutas, sangue, etc, podem suscitar comportamentos de excitação nos chimpanzés, saber qual seria a influência de musicas com riffs rápidos, pesados, vozes guturais, por exemplo, seria interessante. Ainda mais sendo eu apreciadora desse estilos musicas.

Antes de mais é importante perceber como os chimpanzés percepcionam a música. Se o que eles ouvem se assemelha ou não ao que nós ouvimos.  
Recentemente tenho vindo a falar disso, e agora que a primatologia já faz parte do meu dia-a-dia, parece-me interessante pesquisar sobre o assunto e quem sabe se algum dia, caso tenha alguma hipótese plausível de ser testada, não inicie a minha própria experiência. Depois de adquirir muita bagagem teórica e prática, com certeza! 
Um estudo recente de uma equipa Japonesa (Sugimoto et al., 2010) revelou que os chimpanzés, também parecem distinguir os sons consonantes dos sons dissonantes e preferir os primeiros.  
Claro que se lermos o artigo com atenção há muita coisa que podemos apontar como menos positivo, começando por exemplo, pelo facto de só terem utilizado um chimpanzé bebé como amostra da experiência. (Não vos quero maçar com o estudo, por isso se tiverem interessados em saber mais posso facilitar os artigos). A meu ver, é já um começo, e melhores estudos podem advir.
Outro estudo de McDermott e Hauser (2007) com tamarins cabeça-de-algodão e marmosetas comuns (ou seja andamos mais uma milhões de anos atrás na evolução do Homem) preferem tempos lentos, mas não parecem não gostar de música no geral e preferir o silêncio, ao contrário dos homens que preferem por norma tempos rápidos. Para além destes Macacos do Novo Mundo não mostrarem preferência por sons consoantes (McDermott e Hauser, 2004) , como mostrou o chimpanzé e macacos japoneses num estudo de Izami (2000) . 
Estes são alguns exemplos de estudos realizados, com os nossos parentes mais próximos, e inúmeros estudos foram ou estão a ser realizados com humanos. No entanto, a questão permanece em aberto, e muitos mais estudos serão necessários para compreender como se originou e evoluiu a música e, se nós, humanos, seremos os únicos adaptados para a compreender e distinguir, por exemplo, sons consonantes de dissonantes. 
Outros animais, sejam eles, aves, mamíferos marinhos ou primatas não humanos, podem ter evoluído noutro sentido, para melhorar outras funções relativas à audição/cognição cruciais de forma a sobreviverem aos problemas impostos pelo meio que os rodeia. E não terem evoluído no sentido de perceberem a música,  por nós produzida. Afinal qual seria a vantagem de um chimpanzé perceber e apreciar uma sinfonia de Bach ou uma música de heavy metal? Para a sua sobrevivência, seria efectivamente, mais vantajoso perceberem as vocalizações (bem mais simples) de conspecíficos e predadores.
De qualquer forma não basta pensar e deduzir que eles não percepcionam a música simplesmente porque evolutivamente não faria sentido. São precisos estudos para apoiarem, ou não, essa hipótese.
E venham eles!

Ps: Hoje é Domingo, não houve experiência, portanto estou a trabalhar no meu projecto!

Happy grunts, 
Renata

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Som dissonante - Caracterizado por ondas de padrões irregulares, com periodicidade não definida, que resultam em sons desagradáveis.
Som consonante - caracterizado por ondas ausentes de distorção e quaisquer outras irregularidades sonoras, ou seja, a música como nós a conhecemos hoje.
(Goto, 2009)



2 comentários:

  1. Tu e a música, tinha mesmo de acontecer um "post" destes :)
    Mas concordo que deve ser bem interessante...
    Força aí...
    Beijinhos**

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  2. Na minha perspetiva musical, sempre que existem vocalizações em qualquer tipo de musica, sejam em que língua forem, o meu "filtro mental" transforma-as em "na na nana na na" (conforme a letra) e centra-se resultado final da musica. Depois decido se gosto ou não do que ouço!!
    Se precisares de voluntários para o estudo... eu alinho:)

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